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sexta-feira, 3 de maio de 2013

boa noite

A noite já ia alta. Gustavo se aproximou do muro ao ouvir os passos. Marina andava rapidamente, os saltos estalando contra o chão, os cabelos longos e negros deixando a noite fria com um cheiro adocicado. 
- Guga! – ela chamou, apertando a bolsa contra o corpo, olhando em volta, assustada. Não gostava de ir ali nem de dia. Maldito Guga. 
Foi pensar nele para vê-lo. Ele a espiava por cima do muro, apenas os olhos insondáveis e o cabelo castanho visíveis. 
- Vem. – foi tudo o que ele disse, se afastando do muro para abrir o portão. 
- Eu mudei de ideia. – ela falou, dando um passo para frente. Ele a olhou, levantando a sobrancelha. – Não vou fazer isso. 
- É só uma brincadeira. Só se você tiver muito azar. – ele disse, segurando as mãos da garota. – Vamos, eu preciso de você. Podemos jurar sobre a arma. Você trouxe a arma, né? – Marina botou a mão no bolso e puxou a Magnum .44. Gustavo a pegou de sua mão, sorrindo avidamente. 
- Tudo bem. – murmurou Marina, entrando definitivamente no cemitério. Gustavo alargou o sorriso e beijou os lábios da garota. 
- É por isso que eu amo você. – ele fechou o portão e os dois andaram até um canto mais afastado, onde se sentaram em pedras brancas que refletiam o brilho da lua. 
Sorrindo, Gustavo encostou o revólver na lateral da cabeça. 
- Se eu morrer – ele disse, solenemente – vai significar que eu não amo você. Se eu não morrer, meu amor será provado. – sem desmanchar o sorriso infantil, ele puxou o gatilho. 
A explosão fez diversos pássaros alçarem voo  Marina olhou o corpo do garoto até ele bater no chão. Seu sorriso parecia zombar da sua própria estupidez. 
- Acho que você não gostava tanto assim de mim. – murmurou ela. O assassinato perfeito. Havia posto todas as balas no maldito revólver. Garoto burro, nem isso havia checado. 
O revólver era de seu pai. Sua história era perfeita. Havia vindo até o maldito cemitério e terminou com o garoto. Havia levado a arma, sim, mas não percebera que ele havia tirado-a de seu bolso. Voltara então para casa e no dia seguinte receberia a notícia chocante: o namorado se suicidara. Garoto idiota. Namorado infiel. 
- Boa noite, filho da puta – sussurrou ela, se levantando e sumindo dali.

28/12/12

seus olhos

Eu gostava dos seus olhos. 
Não eram o estereótipo de “olhos bonitos”. Eram de um castanho comum, cor de madeira, alguns pontos um pouco mais escuros que o resto. Eram olhos pequenos, porém largos, expressivos, protegidos por sobrancelhas grossas. Tinha cílios curtos, negros, nada chamativos. Eram olhos normais, que você espera encontrar na maior parte das pessoas. 
 Mas eram olhos cuidadosos, olhos que sempre estavam em mim, vigiando meus passos, prontos para me estenderem a mão para ajudar. Olhos de quem se importava. Olhos de quem me amava. 
Olhos comuns de gente especial.

02/02/13

domingo, 28 de abril de 2013

pêndulo

Casas abandonadas a fascinavam. Fazia muitos anos que, sorrateiramente, invadia alguma durante a noite e fotografava cômodo por cômodo. Ia sempre sozinha, nunca tivera medo. Não era diferente naquela noite. Levava uma mochila nas costas, a câmera guardada dentro dela. Andava devagar, absorvendo os detalhes, se controlando para não tocar nos alto-relevo. 
Havia um grande relógio, encostado na parede. Estava quebrado e parecia muito mais antigo que o resto da casa. A moça não se controlou e tocou nele. Uma quantidade absurda de pó sujou sua mão. Limpou-a distraidamente na camiseta. O pêndulo do relógio se encontrava caído, e as mãos já não apontavam a hora certa. 
Puxou um casaco da mochila e o vestiu, voltando a andar. A noite esfriava rapidamente. Ela não se importava com o frio. Parou no que achou ser a sala de jantar da casa e pegou a câmera, começando a fotografar os cômodos. A casa estava mais quieta do que nunca. Nem a madeira rangia mais. 
O relógio bateu a meia noite.

30/12/12

imensidão

Vou para a praia todos os anos. Não por ser fã da multidão ou da areia ou o sol escaldante. Mas o mar me fascina. Sempre me fascinou. 
Não hesito na hora de entrar na água fria. Agradeço por ela. Ando tranquilamente até a arrebentação, esperando a próxima onda. Então me viro para a areia, e abro os braços, como uma figura de proa. E então a onda vem, e eu pulo e me ergo, e naquele único segundo eu fico acima de todos e vejo a todos e tudo. 
Repito isso várias vezes ao longo do dia, até meu corpo cansar, mas a sensação não desaparece. O mar me pertence. E no segundo em que fico acima do mundo, tudo me pertence, tudo sou eu. 
E eu sou tudo.

19/02/2013

sábado, 27 de abril de 2013

inocência

Olho nos olhos de um cachorro na rua e subitamente vejo à mim mesmo. Me vejo bebê, com grandes olhos redondos, cheios de uma pureza sem igual. Me vejo criança, sapeca, os olhos sorrindo com naturalidade. Me vejo feliz, brincando, correndo. Me vejo triste, esperando minha mãe voltar para casa. 
Olho para o rosto do cão. Molhado, sujo, machucado. Falhas nos pelos. Me abaixo e estendo minha mão. Ele vem para mim, pede carinho, abana o rabo. Toco sua cabeça de leve. Pelos molhados e sujos se grudam aos meus dedos. Ele levanta os olhos para mim, e me vejo novamente nos seus olhos. 
Vejo a mim, sozinho, esperando por alguém que nunca vai chegar. Vejo a mim, com fome, catando comida por lugares abandonados. Vejo a mim, machucado, sem ninguém para me cuidar. Vejo a mim, molhado, sem nada para me secar. 
Me ajoelho e abraço o cão. Ele se deixa abraçar, se aconchega, dá uma lambida na minha orelha. Choro. Juro nunca mais abandoná-lo. 
Sei que ele nunca me abandonará.

27/04/13

terça-feira, 23 de abril de 2013

i am free

Tudo parecia novo para ela. O vento, sussurrando entre as árvores, suavemente balançando as folhas. O céu, de um azul-claro estonteante, com nuvens fofas como algodão, parecendo pinceladas. O murmúrio de um rio correndo em algum lugar perto, mas escondido, a água batendo contra pedras. O próprio cheiro, de terra quente, de grama e de árvores, cheiro do próprio corpo, nada parecia real. 
Suas roupas eram farrapos. Não que sentisse vontade de usá-las, era um costume antigo. Não se lembrava porque, mas precisava usá-las. O dia estava muito quente. Tirou as roupas e as atirou longe. Começou a andar, seguindo o som da água. Não temia mais os animais que existiam naquela floresta. Fazia muito tempo que tinha aprendido como fugir deles, ou, se necessário, atacá-los. 
A água lhe parecia ainda mais cristalina. Um lugar em que seus iguais não haviam chegado. Seguiu o curso do rio, andando pela água, até chegar a um lago fundo. Mergulhou sem hesitar, a água tão fria que quase doía. Nadou algum tempo, observando os pequenos peixes que a acompanhavam. Quando resolveu sair, deitou-se ao sol para se secar. Então pegou um punhado de lama e passou no rosto e no corpo. A terra iria protegê-la do sol e dos mosquitos. 
Saiu para catar frutas, diversas frutas que cresciam por tudo ali. Juntaria isso com raízes que encontrasse pelo caminho e alguns restos da carne do dia anterior. Não sentia a necessidade de caçar todo dia. A carne raramente entrava no seu cardápio, mas ontem fora um dia especial. Fazia dez anos desde... algo. Acordara com a memória meio ruim, mas não estava se importando. A memória não era realmente necessária ali.
Fizera um esconderijo suspenso para dormir e guardar seus restos de comida. Foi para lá, escalando árvores como havia aprendido fazia tempos. Tinha mãos e pés calejados pelos anos de prática. Havia caído incontáveis vezes no processo. Algumas vezes chegou a pensar que iria morrer, mas não estava sozinha na época... 
Havia poucas coisas no seu esconderijo. Algumas mochilas, restos de comida, roupas rasgadas. Ela gostaria de poder costurar roupas para si, mas não tinha essa capacidade. Porém, sempre aproveitava o couro e a pele quando caçava. Estava tudo acumulado em um canto, algumas partes costuradas juntas para fazer cobertas. 
Um barulho alto chamou a sua atenção. Levantou a cabeça, escutando. Um barulho que não ouvia fazia tanto tempo que não reconheceu a princípio. Se jogou para fora do esconderijo, descendo a árvore tão rapidamente que quase caiu. Correu pela floresta, alguns galhos se enganchando nos seus cabelos extremamente longos e emaranhados. Tropeçou várias vezes ao longo do caminho, até que se viu livre, em um campo plano. 
Havia um grupo de homens parados na frente de um helicóptero. Assim que a viram, deram um passo para trás. Nunca teriam imaginado isso. Uma mulher nua, coberta de lama e olhos selvagens, os olhando com tanta raiva que queimava. Parecia saída de algum livro, uma protetora das florestas. Então ela gritou para eles, tão alto que fez pássaros saírem voando da copa das árvores, e voltou correndo para dentro da vegetação.

28/12/12

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

última corrida (joia, in memorian)

Ia embora sem olhar para trás, já não me aguentava mais de pé. Porém, um vulto cinzento chamou minha atenção, destacado contra o fundo verde. Mudei de direção e me sentei no chão, pouco ligando para a sujeira.
- E aí, Joia? - falei, passando a mão em seu flanco cinzento. Ela me olhou, remelenta. Ri baixinho. - Deixa eu limpar essas cacas. - passei os dedos com delicadeza, até tirar todos os resquícios de sujeira de seus olhinhos escuros. Fiquei sentada por alguns minutos, apreciando o final da tarde. Finalmente me levantei - Tá, bebê, agora eu vou embora. - voltei a andar, na direção da parada de ônibus. Um ruído fraco me chama a atenção. Viro-me para trás, e a cadela me seguia em passinhos rápidos. Sorri e chamei-a, e ela sacudiu o toco do rabo e apressou o passo.
Ela parou ao meu lado, pedindo por carinho. Passei a mão na sua cabeça algumas vezes, e voltei a andar, ela sempre atrás de mim, cada vez mais devagar. Continuei andando, sem me preocupar com ela. Se ela quisesse, viria atrás de mim. Mas, novamente, o tec-tec das unhas raspando o chão me chamou a atenção. E mais uma vez me virei para trás, apenas para ver um risco cinzento correndo, sorrindo para mim, toda feliz. Não pude me conter, ri alto e me abaixei para abraçá-la.
Parou de me seguir pouco antes de eu chegar na parada. Não me importei muito na hora, ela estaria lá amanhã, no mesmo horário, me esperando. Ela sempre estava lá.
Não dessa vez. O mundo não funciona como planejado.

05/12/12

Vai em paz, Joia.

Patas Dadas para mudar o mundo.

domingo, 30 de setembro de 2012

o garoto que desenhava

Ela se aproximou lentamente do garoto sentado na grama.
- O que você está fazendo?
 - Desenhando. - ele adicionou mais um traço a folha, terminando um dos olhos. - É apenas um rascunho.
- Está muito bom - Laura se agachou e sentou-se ao seu lado. - Qual é o seu nome?
- Henrique. - o rapazinho respondeu. Laura esticou o braço e eles apertaram as mãos.
- Prazer, Laura. - ela falou suavemente, como tinha ouvido seus pais fazerem tantas vezes. Henrique sorriu e voltou ao seu desenho. Era um bom desenhista para seu tamanho.
- Laura...? - ele falou, meio em dúvida, após alguns instantes de silêncio
- Ah, estou te atrapalhando? Perdão - ela começou a se levantar quando ele a segurou delicadamente.
- Não, não é isso. Eu só... eu queria te desenhar. - o sorriso que ela abriu o fez corar. Ele virou a página
- Claro! - ela sentou novamente, sorrindo, deliciada. Nunca havia sido desenhada antes. Era uma emoção totalmente estranha e surpreendentemente agradável.
O silêncio se arrastou entre eles por alguns minutos. Henrique movia a mão rapidamente, fazendo traços repetidos no papel. Laura mal se mexia, nem mesmo para respirar. Não queria ficar feia. Ao mesmo tempo, ia absorvendo detalhes do rapaz. O jeito que seu cabelo claro caía por cima dos seus olhos e como ele o empurrava para longe. As maçãs do rosto altas, o rostinho levemente redondo. Laura era muito inteligente para sua idade. Henrique era só um garotinho, mas ela sabia que um dia ele seria muito bonito.
Ela nunca iria esquecer o dia em que conhecera Henrique. Na verdade, escreveu essa história nos seus votos de casamento.

09/12

quinta-feira, 5 de julho de 2012

na espera

- Então, o que você vai fazer? – olhei-a por cima dos meus óculos, levantei uma sobrancelha. A pergunta era mais estúpida impossível. Soprei a fumaça do cigarro na sua direção e ela sacudiu a mão na frente do rosto, tossindo.
- Nada. Não farei nada. – ela arrancou o cigarro dos meus dedos quando eu ia dar mais uma tragada.
- Para com essa merda! – gritou, apagando-o na mesa. Suspirei e cocei atrás da minha cabeça. – Que merda, cara. Mas que merda.
 - Não é minha culpa. Você sabe disso. – tirei meus óculos e limpei-os na minha blusa, mesmo sabendo que não estavam sujos. Coloquei-os de volta no meu rosto e puxei mais um cigarro. Ela suspirou, mas não fez nenhum movimento para me impedir enquanto eu o acendia.
- Só fale com ele. Você vai se sentir melhor.
- Não vou falar com ele! – dei um tapa na mesa, fazendo minha amiga pular. – Mas que inferno! Ele quem tem que fazer alguma coisa. Eu cansei disso. – traguei meu cigarro e apaguei-o em seguida, com raiva. – Ele é um filho da puta.
- Ei, eu estou ao seu lado. 
- Eu sei, querida. Aprecio isso.

03/05/12

borboletas

Meu pulso latejava. Mais uma vez passei o dedo pela nova marca, fazendo seu traçado. Desde pequena, eu amava borboletas. Com suas asas multicoloridas, para mim elas faziam a imagem da perfeição. Minha tatuagem, porém, ficaria em preto-e-branco. Assim, sempre que eu tivesse vontade, poderia pintá-la, com caneta mesmo, da cor que eu quisesse. 
Não fomos feitos para termos apenas uma cor.

05/07/12

sexta-feira, 15 de junho de 2012

melancolia

O quarto estava desocupado há algum tempo. Alguns brinquedos acumulavam poeira nas estantes. A pequena cama estava desarrumada: minha esposa havia dormido lá novamente. Podia ver a marca de suas lágrimas no travesseiro. Pendurados na janela, pequenos sinos tilintavam com a brisa leve, me lembrando de sua risada infantil e inocente.

13/06/12

(esse foi para um exercício, o tema era 'o olhar de um pai sobre o quarto do filho morto, sem citar o filho')

quarta-feira, 25 de abril de 2012

dance comigo

A noiva estava linda. Seu vestido farfalhava suavemente enquanto ela girava pelo salão nas mãos do marido. As damas de honra cochichavam excitadas, brilhantes em seus cetins lilás. O fotógrafo se deslocava pelo local, tranquilo, com a câmera bem segura perto do rosto, nem sempre virada para os recém-casados. Uma única convidada lhe chamou a atenção. Seu vestido era um azul-claro, com as costas abertas. Estava sentada junto à mesa do bolo, bebericando lentamente uma taça de champanhe. 
- Tudo bem aí? – ele perguntou, se aproximando da moça. Ela levantou o rosto, uma das sobrancelhas erguidas em indagação. Seu cabelo era cor de cobre, ondulado. Estava preso atrás apenas de um lado e caía em cascata por cima do ombro. 
- Não ligue para mim, estou ótima. – ela deu um sorriso brilhante. – Linda festa, não acha? 
- Fantástica. 
- Era para ser eu. A noiva, quero dizer. – ela bebeu mais um golinho da taça. – Em tese, pelo menos. Eu que gostava dele, ela o pegou só para me provocar. E acabou gostando. – suspirou, bebeu mais um pouco – Já faz anos agora, não sei por que estou falando disso. – o fotógrafo sorriu, mexeu no cabelo, guardou a câmera. 
- Dance comigo – ele disse, estendendo a mão para a moça. 
- Perdão? – ela sorriu, incrédula. Seus olhos eram amendoados, de íris azul. 
- Dance comigo. Seja deslumbrante. Mais do que a noiva. – ela piscou, absorvendo a ideia. Abrindo um sorriso novamente, pegou a mão do fotógrafo e se levantou, arrumando o vestido ao seu redor. 
- Com prazer. – ela colocou uma das mãos no ombro dele, se aproximando. – Você ainda não me disse seu nome. 
- Felipe, fotógrafo. – ele falou, sorrindo ao segurar sua cintura. 
- Sou Clarissa.

25/04/12

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

chuva

Eu deveria tomar mais banhos de chuva.
Quer dizer, é uma das coisas mais purificadoras que eu já vi. Lava-me a alma. Refresca-me o corpo. 
Pelo menos quando estou perto de casa, com roupas secas por perto.
Na rua, é outra história.

21/02/12

algodão doce

Pode ter sido um sonho, já não sei. Um dia, andava pela rua, e vi uma árvore de algodão doce. Tinha os galhos carregados, rosa-claro, macio ao toque. Vi crianças escalando seu tronco, gargalhando de felicidade enquanto puxavam bocados do doce.
Sorrio com essa memória.
Me faz acreditar que tudo é possível.

20/02/12

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

um, dois, três, quatro

Um, dois, três, quatro.
Toda a rua andava no mesmo ritmo, todos os sons, os cheiros, o ar.
Um, dois, três, quatro.
Era o seu ritmo, dois passos com um pé, dois com o outro. Mais quatro gotas caíram e estouraram no chão, junto com os seus passos, mantendo a sincronia.
Um, dois, três, quatro.
A chuva havia parado há algum tempo, mas os toldos ainda pingavam, molhando os pedestres incautos. Um carro passou rapidamente, jogando uma cortina de água para a calçada, fazendo muitos pularem.
Um, dois, três, quatro.
Um dia, duas pessoas, três palavras, quatro lágrimas. Quando o viu novamente, a sincronia perdeu a importância, e saiu correndo para seus braços.

27/06/10

só talvez

Um dia eu me dei conta de que, talvez, as coisas não estejam certas. Não vou dizer que sou eu quem está certa, no fim das contas. Não sou. Sou quase tão errada quanto o resto do mundo. Mas eu realmente me esforço para mudar. Para tentar deixar as coisas melhores. E, lentamente, vou arrumando o que posso.

25/01/12

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

desconhecido

Ele nunca tinha chamado muita atenção. Fora um rapaz franzino, meio pálido, de cabelos negros e escorridos. Na escola, ouvia coisas maldosas, era chamado de Gollum. Quando se formou, não foi nem na cerimônia nem na festa.
Nunca tentou estabelecer contato com os ex-colegas. Saiu de casa, nunca mais ligou. Aos poucos, deixou de ser procurado. Era invisível nas ruas. Não prendia a atenção por mais de alguns segundos.
Era domingo quando ele parou para pensar. Não via mais sentido na sua vida. Nunca tinha visto, na verdade. Ele só estava ali, existindo, sendo sem ser. Gargalhou, com as lágrimas escorrendo pelo rosto magro. Morava há anos na rua, pedindo esmola.
Já tinha se desligado quando chegou na beira da ponte. Se deixou cair de rosto na água. Ao longo dos anos, ele já havia desaparecido.

13/4/11

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

náiade (parte 1)

Eu não gostava do bosque.
Era um lugar escuro e deprimente, com árvores cujos troncos eram tão grossos que nem três pessoas poderiam abraçá-los. O ar era úmido e fresco, com um leve cheiro de terra molhada e folhas em decomposição. Só havia um único lugar no bosque que eu gostava. Era lá onde eu sempre ficava quando era obrigado a acampar.
Era um pequeno lago. Dependendo do dia, era possível enxergar o fundo na beira, mas na maioria das vezes ele estava tão escuro que a única coisa que eu via era o meu reflexo. O lago estava escuro esse dia. Eu era uma criança ainda, acho que entre oito e nove anos. Eu mexia na água com um pequeno graveto, jogando algumas pedras, quando uma ondulação me assustou.
Me levantei rapidamente, cambaleando dois passos para trás. A ondulação se repetiu, e eu, curioso, me aproximei. A água do lago estava parada como um vidro, mas algo tinha mudado. Tinha algo na água.
Prendi a respiração. Seja lá o que fosse, não era humano. Não sabia nem se era animal. Não havia bolhas de ar subindo. Não podia ser um tronco também. Não havia nada em cima da água. Cutuquei a beira da água com a bota. Nada aconteceu. Eu estava começando a achar que não tinha sido nada quando eu vi dois olhos flutuando.
Eram de um azul magnífico. Não consegui defini-lo. Não era claro nem escuro, apenas azul, grandes e inocentes. O assustador era que, onde devia ser branco, era negro. Só percebi que estava gritando quando algo pulou da água e tapou minha boca. A garota, porque era uma garota, tinha a minha altura, provavelmente a minha idade, e era absolutamente linda. Sua pele era clara, quase iridescente, e meio azulada. Seus cabelos eram longos e emaranhados, e verdes. Havia algas enroladas neles, meio que os trançando. Seu nariz era pequeno e arrebitado e a boca era um tom levemente mais escuro que a pele, parecida com um botão de rosa.
- Não grite – ela pediu com uma voz de soprano. Eu arregalei meus olhos e fiz que sim com a cabeça. Ela me soltou lentamente, sem piscar. Sua pele parecia translúcida de perto. Algumas de suas veias eram brancas, destacadas na pele azulada. Ela também tinha pequenas guelras no pescoço. Estava totalmente nua, mas eu era uma criança e isso nada importava para mim. Percebi que uma fina membrana ligava seus dedos. Onde ela me tocou, fiquei molhado. Ela tinha saído de dentro do lago, é claro, mas tinha certeza de que mesmo que não fosse assim, ela continuaria sendo úmida. Como um sapo.
- O que é você? – sussurrei, tentando recuar. Ela percebeu meu movimento e se mexeu, indo para trás até ter os tornozelos cobertos pela água. Suas guelras pulsaram duas vezes antes dela responder.
- Uma Náiade. – falou, e sua voz reverberou no ar, parecendo brilhar. – Mais especificamente, uma limnátide. Uma ninfa dos lagos. – todas as palavras eram novas para mim, e isso me deu mais medo. Ela ergueu a mão para mim, sua boca se abrindo num ‘O’ perfeito. – Não vou fazer mal a você. Só se você tentar entrar no meu lago. Eu tenho de protegê-lo. Meu nome é Despina – ela adicionou suavemente.
- Eu sou Dominic – falei em voz baixa. Ela abaixou a cabeça, me observando atentamente. O negro nos seus olhos me assustava. Eu queria sair correndo. Mas, enquanto ela me olhava, seus lábios finos se repuxaram em um sorriso tímido.

8/1/11
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Primeira parte de um novo projeto meu, um pouco mais longo :D
'náiade' é só o título provisório, vou mudar assim que achar um decente...

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

estado de espírito

Quando ouço a palavra "fantasma", o que vem a minha cabeça é um ser triste, úmido e cinzento. Não acho que sejam criaturas maldosas. Só não sabem o que estão fazendo aqui ainda. São indefesos e inocentes.
Ando pelas ruas da cidade após um dia chuvoso. Os prédios se erguem sobre mim, esqueletos cinzentos. Não há ninguém fora de casa. A água escorre pelos telhados, pingando melancolicamente no chão. Uma pomba arrulhou e levantou voo acima de mim. O galho que ela estava se sacudiu, deixando várias gotas me molharem.
Nessa hora, penso em uma coisa. A semelhança entre a cidade e os fantasmas. A noite, a cidade é uma lembrança do que foi durante o dia. Todos que andam por suas ruas depois do sol se pôr também são como fantasmas, espectros entre a fumaça de cigarros.

6/10/11

domingo, 28 de agosto de 2011

Cínthia

- Ele não está respirando! – Lauren gritou. Jenn começou a bombear seu peito com as mãos, contando. Por fim, assoprou para dentro de sua boca. Esperou e voltou a bombear.

Enquanto isso, Fred vagava por um mundo negro. Ouvia sons, a voz de Lauren e Jenn contando. Não enxergava nada, mas sentia o corpo molhado. E uma pressão horrível perto do coração. Queria abrir os olhos, mas não podia. Estava preso.

- Fred! Acorda, Fred! – Lauren murmurou. As lágrimas escorriam dos seus belos olhos azuis. Ela não ousava tocar no garoto, por mais que quisesse. Jenn agora assoprava ar para dentro dele novamente.
- Respire, merda! – ela berrou, dando um tapa no peito do garoto. Fred abriu os olhos, em pânico, e vomitou água salgada.
- Fred! – Lauren se aproximou, mas ele já havia fechado os olhos. – Jenn, o que houve?

Ele estava enlouquecido. Seu peito ardia. A garganta ardia. Jenn e Lauren queriam ajudá-lo, mas não conseguiam. E seus olhos não abriam novamente.
- Fred. – ele podia vê-la. Não era Lauren, nem Jenn. Era Cínthia. Sua irmã. Morta desde que tinham 10 anos.
- Cínthia. – se ouviu dizer. Ela sorriu. Tinha uma boca de botão, com dentes de marfim. Os cabelos eram castanho-claros, cacheados como os seus, e tinha os olhos verdes da mãe. E, apesar de a morte prematura ter eternizado seu corpo na infância, ali ela parecia ter sua idade, 15 anos.
- Você precisa me deixar ir – ela disse. Ele sentiu que pegava suas mãos. – Me deixe ir. Me dê adeus. Aceite.
- Não.
- Por favor, Fred. Você vai se destruir. Lauren ama você. Jenn o adora. Por favor, Fred. Por mim. – o abraçou. Seu corpo não parecia ter substância. Abriu a boca para responder.

Seus olhos abriram lentamente. Jenn e Lauren haviam sumido. Seu corpo estava quente e seco, e ele estava na sua cama. Tudo estava normal. Quando sua mãe entrou no quarto para acordá-lo, perguntou:
- Por que você está chorando? – e ele respondeu que Cínthia havia ido embora.

28/8/11