quarta-feira, 25 de abril de 2012

dance comigo

A noiva estava linda. Seu vestido farfalhava suavemente enquanto ela girava pelo salão nas mãos do marido. As damas de honra cochichavam excitadas, brilhantes em seus cetins lilás. O fotógrafo se deslocava pelo local, tranquilo, com a câmera bem segura perto do rosto, nem sempre virada para os recém-casados. Uma única convidada lhe chamou a atenção. Seu vestido era um azul-claro, com as costas abertas. Estava sentada junto à mesa do bolo, bebericando lentamente uma taça de champanhe. 
- Tudo bem aí? – ele perguntou, se aproximando da moça. Ela levantou o rosto, uma das sobrancelhas erguidas em indagação. Seu cabelo era cor de cobre, ondulado. Estava preso atrás apenas de um lado e caía em cascata por cima do ombro. 
- Não ligue para mim, estou ótima. – ela deu um sorriso brilhante. – Linda festa, não acha? 
- Fantástica. 
- Era para ser eu. A noiva, quero dizer. – ela bebeu mais um golinho da taça. – Em tese, pelo menos. Eu que gostava dele, ela o pegou só para me provocar. E acabou gostando. – suspirou, bebeu mais um pouco – Já faz anos agora, não sei por que estou falando disso. – o fotógrafo sorriu, mexeu no cabelo, guardou a câmera. 
- Dance comigo – ele disse, estendendo a mão para a moça. 
- Perdão? – ela sorriu, incrédula. Seus olhos eram amendoados, de íris azul. 
- Dance comigo. Seja deslumbrante. Mais do que a noiva. – ela piscou, absorvendo a ideia. Abrindo um sorriso novamente, pegou a mão do fotógrafo e se levantou, arrumando o vestido ao seu redor. 
- Com prazer. – ela colocou uma das mãos no ombro dele, se aproximando. – Você ainda não me disse seu nome. 
- Felipe, fotógrafo. – ele falou, sorrindo ao segurar sua cintura. 
- Sou Clarissa.

25/04/12

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

chuva

Eu deveria tomar mais banhos de chuva.
Quer dizer, é uma das coisas mais purificadoras que eu já vi. Lava-me a alma. Refresca-me o corpo. 
Pelo menos quando estou perto de casa, com roupas secas por perto.
Na rua, é outra história.

21/02/12

algodão doce

Pode ter sido um sonho, já não sei. Um dia, andava pela rua, e vi uma árvore de algodão doce. Tinha os galhos carregados, rosa-claro, macio ao toque. Vi crianças escalando seu tronco, gargalhando de felicidade enquanto puxavam bocados do doce.
Sorrio com essa memória.
Me faz acreditar que tudo é possível.

20/02/12

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

um, dois, três, quatro

Um, dois, três, quatro.
Toda a rua andava no mesmo ritmo, todos os sons, os cheiros, o ar.
Um, dois, três, quatro.
Era o seu ritmo, dois passos com um pé, dois com o outro. Mais quatro gotas caíram e estouraram no chão, junto com os seus passos, mantendo a sincronia.
Um, dois, três, quatro.
A chuva havia parado há algum tempo, mas os toldos ainda pingavam, molhando os pedestres incautos. Um carro passou rapidamente, jogando uma cortina de água para a calçada, fazendo muitos pularem.
Um, dois, três, quatro.
Um dia, duas pessoas, três palavras, quatro lágrimas. Quando o viu novamente, a sincronia perdeu a importância, e saiu correndo para seus braços.

27/06/10

só talvez

Um dia eu me dei conta de que, talvez, as coisas não estejam certas. Não vou dizer que sou eu quem está certa, no fim das contas. Não sou. Sou quase tão errada quanto o resto do mundo. Mas eu realmente me esforço para mudar. Para tentar deixar as coisas melhores. E, lentamente, vou arrumando o que posso.

25/01/12

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

desconhecido

Ele nunca tinha chamado muita atenção. Fora um rapaz franzino, meio pálido, de cabelos negros e escorridos. Na escola, ouvia coisas maldosas, era chamado de Gollum. Quando se formou, não foi nem na cerimônia nem na festa.
Nunca tentou estabelecer contato com os ex-colegas. Saiu de casa, nunca mais ligou. Aos poucos, deixou de ser procurado. Era invisível nas ruas. Não prendia a atenção por mais de alguns segundos.
Era domingo quando ele parou para pensar. Não via mais sentido na sua vida. Nunca tinha visto, na verdade. Ele só estava ali, existindo, sendo sem ser. Gargalhou, com as lágrimas escorrendo pelo rosto magro. Morava há anos na rua, pedindo esmola.
Já tinha se desligado quando chegou na beira da ponte. Se deixou cair de rosto na água. Ao longo dos anos, ele já havia desaparecido.

13/4/11

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

náiade (parte 1)

Eu não gostava do bosque.
Era um lugar escuro e deprimente, com árvores cujos troncos eram tão grossos que nem três pessoas poderiam abraçá-los. O ar era úmido e fresco, com um leve cheiro de terra molhada e folhas em decomposição. Só havia um único lugar no bosque que eu gostava. Era lá onde eu sempre ficava quando era obrigado a acampar.
Era um pequeno lago. Dependendo do dia, era possível enxergar o fundo na beira, mas na maioria das vezes ele estava tão escuro que a única coisa que eu via era o meu reflexo. O lago estava escuro esse dia. Eu era uma criança ainda, acho que entre oito e nove anos. Eu mexia na água com um pequeno graveto, jogando algumas pedras, quando uma ondulação me assustou.
Me levantei rapidamente, cambaleando dois passos para trás. A ondulação se repetiu, e eu, curioso, me aproximei. A água do lago estava parada como um vidro, mas algo tinha mudado. Tinha algo na água.
Prendi a respiração. Seja lá o que fosse, não era humano. Não sabia nem se era animal. Não havia bolhas de ar subindo. Não podia ser um tronco também. Não havia nada em cima da água. Cutuquei a beira da água com a bota. Nada aconteceu. Eu estava começando a achar que não tinha sido nada quando eu vi dois olhos flutuando.
Eram de um azul magnífico. Não consegui defini-lo. Não era claro nem escuro, apenas azul, grandes e inocentes. O assustador era que, onde devia ser branco, era negro. Só percebi que estava gritando quando algo pulou da água e tapou minha boca. A garota, porque era uma garota, tinha a minha altura, provavelmente a minha idade, e era absolutamente linda. Sua pele era clara, quase iridescente, e meio azulada. Seus cabelos eram longos e emaranhados, e verdes. Havia algas enroladas neles, meio que os trançando. Seu nariz era pequeno e arrebitado e a boca era um tom levemente mais escuro que a pele, parecida com um botão de rosa.
- Não grite – ela pediu com uma voz de soprano. Eu arregalei meus olhos e fiz que sim com a cabeça. Ela me soltou lentamente, sem piscar. Sua pele parecia translúcida de perto. Algumas de suas veias eram brancas, destacadas na pele azulada. Ela também tinha pequenas guelras no pescoço. Estava totalmente nua, mas eu era uma criança e isso nada importava para mim. Percebi que uma fina membrana ligava seus dedos. Onde ela me tocou, fiquei molhado. Ela tinha saído de dentro do lago, é claro, mas tinha certeza de que mesmo que não fosse assim, ela continuaria sendo úmida. Como um sapo.
- O que é você? – sussurrei, tentando recuar. Ela percebeu meu movimento e se mexeu, indo para trás até ter os tornozelos cobertos pela água. Suas guelras pulsaram duas vezes antes dela responder.
- Uma Náiade. – falou, e sua voz reverberou no ar, parecendo brilhar. – Mais especificamente, uma limnátide. Uma ninfa dos lagos. – todas as palavras eram novas para mim, e isso me deu mais medo. Ela ergueu a mão para mim, sua boca se abrindo num ‘O’ perfeito. – Não vou fazer mal a você. Só se você tentar entrar no meu lago. Eu tenho de protegê-lo. Meu nome é Despina – ela adicionou suavemente.
- Eu sou Dominic – falei em voz baixa. Ela abaixou a cabeça, me observando atentamente. O negro nos seus olhos me assustava. Eu queria sair correndo. Mas, enquanto ela me olhava, seus lábios finos se repuxaram em um sorriso tímido.

8/1/11
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Primeira parte de um novo projeto meu, um pouco mais longo :D
'náiade' é só o título provisório, vou mudar assim que achar um decente...