terça-feira, 21 de junho de 2011

renascendo

Quando abri meus olhos, fiquei apavorada. Eu não enxergava nada. Onde eu estava? Abri a boca para gritar, mas tudo que aconteceu foi uma substância estranha entrando na minha boca. Cuspi, respirando cada vez mais rápido. Tentei mexer meus braços. Era difícil, mas eu podia movê-los. Agora que eu me mexia, algo começava a cair em mim. Terra?
Sacudi meus ombros, forçando meu caminho para cima. Sim, definitivamente era terra. Me forçava a não pensar, mas sabia. Eu estava presa, enterrada. O ar estava me faltando, e o desespero me consumia. Tinha medo do que encontraria.
Era um dia lindo.

13/4/11

ajudante

O vento fustigava seus cabelos negros. Ela andava rapidamente, abraçando a si mesma com força. Estava molhada, da chuva contínua, e parecia sentir frio. Mesmo a distância, eu podia ver que ela estava abatida, e seus olhos estavam vermelhos de chorar.
Bebi mais um gole do meu chocolate quente quando ela entrou no Café. Parecia ainda pior de perto. Com uma voz rouca, pediu um capuccino e sentou-se na mesa vizinha. Desviei os olhos da garota e voltei a fazer minhas palavras-cruzadas.
Eu sabia que era ela. Em breve, ela pediria minha ajuda. Não que eu gostasse de ajudar. Era involuntário. Eu tinha essa coisa, meio especial. Ouvia pedidos de ajuda. Sabia onde deveria estar e com quem falar. Estava cansada disso, mas não tinha escolha.
- Ô moça – ela me chamou. Desviei o olhar da revistinha e a encarei, impassível. Ela tinha um olhar triste, cansado. – Você tem fogo? – me mostrou uma caixa de cigarros.
- Sim – respondi baixinho, pegando um isqueiro na minha bolsa e o alcancei para ela.
- Obrigada – ela falou, acendendo o cigarro. Tinha as mãos trêmulas, com dedos finos e longos. Talvez ela tocasse piano.
- Você está bem? – perguntei. Ela fez que sim com a cabeça, mas então, sem mais nem menos, desabou chorando. Não esbocei reação. Me movi apenas para lhe entregar um guardanapo. Ela limpou os olhos com delicadeza e deu uma tragada no cigarro.
- Obrigada – ela disse de novo. Sorri de leve.
- Não sei o seu problema – falei baixinho, sabendo que era uma mentira. Eu sabia sim. Olhava nos olhos dela e via exatamente o que tinha acontecido. Nada muito complexo, mas extremamente destrutivo. Havia brigado com o noivo. Para alguma outra pessoa, eu não precisaria dar conselhos. Mas ela estava por um fio. – Mas posso lhe dizer isso: você é perfeita na sua imperfeição. Pense nisso – me levantei lentamente e peguei uma rosa da minha bolsa. – Olhe para essa flor. Você enxerga suas pétalas viçosas. Se uma rosa se olhasse no espelho, veria apenas seus espinhos. – Larguei a flor na mesa da mulher. Ela riu de leve e fechou os olhos, dando mais uma tragada. Quando os abriu novamente, eu já tinha sumido.
Naquele dia, perdi uma revista de palavras cruzadas.

1/5/11

domingo, 12 de junho de 2011

le toi du moi

Uma, duas, três passaram na sua frente. Apenas um olhar foi o suficiente para saber que não eram as certas. Não eram a que ele queria. Não eram ela, pois ela era única. Ele também não sabia quem era ela. Estava há dias esperando por ela, e ela não vinha. Talvez, talvez fosse seu dia de sorte.
O vento soprou, fazendo as árvores murmurarem umas com as outras. Um carro estacionou ali perto, o único tão tarde. Sim, era ela quem saiu do automóvel, e mais linda impossível. Tinha os cabelos negros, compridos, uma franja comprida escondia a testa. A pele parecia doentiamente branca no escuro, fazendo um contraste gritante com os cabelos e o casaco de couro negro. Ela não o viu se aproximar.
Puxou-a com força, fazendo com que ela caísse de costas no chão. Seus olhos se arregalaram, mas na surpresa, ela não soltou nenhum som. Pegou o canivete de seu bolso, e o aproximou do rosto da mulher. Ela era nova, não podia ter mais de 25 anos. Sua pele era macia quando ele deslizou a lâmina pela sua garganta. Ela tentou falar, mas só saíram pequenos ruídos pela sua boca. O sangue manchou sua blusa branca.
Ele inspirou com força, sentindo o cheiro do perfume da mulher. Era algo doce, meio enjoativo. Mas já estava sendo dominado por sal e ferrugem. Pelo cheiro do sangue, que escorria grosso e quente pelo pescoço branco da mulher.
Não se arrependia. Sua missão estava completa. Levantou-se e se afastou calmamente.

12/6/11

quinta-feira, 9 de junho de 2011

sussurros na noite

a carta selada. o envelope amarelado. o papel cheiroso. a letra floreada. palavras de mel. cheiro de rosa. papel enrugado, velho. o fogo quente. a lareira aberta. chama vermelha, laranja, amarela, azul. madeira estalando. fagulhas voando. papel queimando. selo de cera derretendo. palavras de mel, letras floreadas gritando silenciosamente por socorro.
o fogo purifica tudo.

9/6/11

domingo, 5 de junho de 2011

três atos

Tive uma vida boa. Fui rico, sabe. As coisas sempre eram boas, fáceis para mim. Entre eu ter um sonho e ele se realizar era questão de minutos. Tive várias amantes, todas lindas, jovens e ingênuas. Me desfiz de todas quando não me satisfaziam mais, ou quando me apaixonava por outra. Deixei para trás apenas dois filhos, um casal de gêmeos, cuja mãe foi a que mais amei. Nenhuma beleza superava a sua. Mas isso já mais não importava. Não conseguia me lembrar de seu rosto. Tudo se perdia na minha memória agora.
No fim, ela também foi embora. As crianças ficaram comigo, mas foram criadas praticamente pelos empregados. Conviviamos apenas nas refeições, quando eu fazia questão de ficarmos juntos. Não fui um bom pai, obviamente. Mas na época não importava. Era escravo da ganância.
Os anos passaram, rápidos como um piscar de olhos. Os gêmeos cresceram. Não falei seus nomes ainda. Eram Carlos e Lucía. Haviam puxado a beleza da mãe e cheiravam a canela assim como ela. As peles eram lisas e suaves, não pareciam mudar ao longo dos anos. Mesmo na adolescência ainda pareciam ser de pêssego.
Mas minha hora estava chegando. Não ia me safar. Na minha mente, eu não fui uma pessoa ruim. Não roubei, não matei. Mas não fui uma pessoa boa. Tinha o temperamento forte, entende. Meus filhos, tenho vergonha de chama-los assim, não fui um pai para eles, nunca viram esse meu lado. Mas sabiam dele. Toda a bondade que conheceram foi através dos empregados. Nem a mãe chegaram um dia a ver por mais que alguns minutos.
A ideia foi de Lucía, é claro. Tinha o meu temperamento. Muitas vezes eu ouvia-a gritar pela casa, irritada com os empregados ou até mesmo com Carlos. Raramente me dirigia a palavra, apenas pequenos olhares mal-humorados. Eu mal a percebia, outro grande defeito como pai. Isso me levou a morte.
Doce morte. Teve gosto de chocolate. Foi algo inteligente a se fazer. Uma dose excessiva de um remédio que eu tomava há tempos. Nada demais. Mas ela não ficou satisfeita. Precisava fazer algo com as próprias mãos, não através de truques. Não importava o que aconteceria depois.
Eu estava agonizando quando ela se ergueu e puxou uma faca da manga. Não notei no primeiro instante. Eu não conseguia me focar em nada. Carlos não se mexia. Apertava a borda da mesa apenas, como que para sentir algo sólido. Então senti a lâmina entrar no meu corpo, uma vez, três vezes, por fim cinco vezes. O cheiro do sangue me enojou. Algo parecido com ferrugem e sal.
Eu ficava cada vez menos consciente da dor. Na verdade, ficava cada vez menos consciente de tudo. Mas eu precisava, eu tinha que olhá-la uma última vez. Mas não havia imagens, nem sons. Eu sentia o gosto do chocolate na minha garganta. Os rasgos no meu peito. Até mesmo o cheiro de sangue continuava presente. Tentei falar, mas não tinha voz.
Tudo estava desaparecendo.

1/2/11

sábado, 4 de junho de 2011

mar

O cheiro do mar me acertou em cheio. Respirei profundamente, absorvendo-o. Eu não havia percebido que sentia falta disso. Arranquei o chinelo dos pés, sentindo a areia fofa entre os dedos. Continuei andando, decidida. Cheguei ao topo da duna e olhei para o horizonte. O sol estava se pondo, mas o mar brilhava fracamente, refletindo sua luz alaranjada. O rugido das ondas era baixo, mas constante. Saí correndo na sua direção, rindo.
A água era gelada. Ri mais alto, correndo mais para o fundo. Em segundos eu estava encharcada. Continuei andando, empurrada pelas ondas, puxada pela correnteza. E então, subitamente, afundei. O susto me fez abrir a boca, e eu senti o gosto de sal. Lutei para ir para cima, e descobri que era apenas um buraco.
E então continuei andando, até onde eu não alcançava mais o chão, me deitei em cima das águas, boiando para longe da arrebentação. Não sei por quanto tempo vaguei, mas então estava no lugar certo. Afundei. Inspirei, sentindo a água entrar nos meus pulmões, mas não havia dor. Eu estava em casa.

Porque há simplesmente algumas pessoas
Para quem vale mais a pena perecer em seus
Elementos do que continuar vivendo no cinza chumbo
Das cidades. Afinal, tudo que é do mar
Um dia
Retorna ao mar.

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