domingo, 28 de agosto de 2011

Cínthia

- Ele não está respirando! – Lauren gritou. Jenn começou a bombear seu peito com as mãos, contando. Por fim, assoprou para dentro de sua boca. Esperou e voltou a bombear.

Enquanto isso, Fred vagava por um mundo negro. Ouvia sons, a voz de Lauren e Jenn contando. Não enxergava nada, mas sentia o corpo molhado. E uma pressão horrível perto do coração. Queria abrir os olhos, mas não podia. Estava preso.

- Fred! Acorda, Fred! – Lauren murmurou. As lágrimas escorriam dos seus belos olhos azuis. Ela não ousava tocar no garoto, por mais que quisesse. Jenn agora assoprava ar para dentro dele novamente.
- Respire, merda! – ela berrou, dando um tapa no peito do garoto. Fred abriu os olhos, em pânico, e vomitou água salgada.
- Fred! – Lauren se aproximou, mas ele já havia fechado os olhos. – Jenn, o que houve?

Ele estava enlouquecido. Seu peito ardia. A garganta ardia. Jenn e Lauren queriam ajudá-lo, mas não conseguiam. E seus olhos não abriam novamente.
- Fred. – ele podia vê-la. Não era Lauren, nem Jenn. Era Cínthia. Sua irmã. Morta desde que tinham 10 anos.
- Cínthia. – se ouviu dizer. Ela sorriu. Tinha uma boca de botão, com dentes de marfim. Os cabelos eram castanho-claros, cacheados como os seus, e tinha os olhos verdes da mãe. E, apesar de a morte prematura ter eternizado seu corpo na infância, ali ela parecia ter sua idade, 15 anos.
- Você precisa me deixar ir – ela disse. Ele sentiu que pegava suas mãos. – Me deixe ir. Me dê adeus. Aceite.
- Não.
- Por favor, Fred. Você vai se destruir. Lauren ama você. Jenn o adora. Por favor, Fred. Por mim. – o abraçou. Seu corpo não parecia ter substância. Abriu a boca para responder.

Seus olhos abriram lentamente. Jenn e Lauren haviam sumido. Seu corpo estava quente e seco, e ele estava na sua cama. Tudo estava normal. Quando sua mãe entrou no quarto para acordá-lo, perguntou:
- Por que você está chorando? – e ele respondeu que Cínthia havia ido embora.

28/8/11

domingo, 7 de agosto de 2011

5 anos

A água quente escorria pelo cabelo louro da garotinha no banho. Aos 5 anos, não sabia nada do mundo, e ruminava algo que tinha lido. Por mais que se esforçasse, não conseguia achar uma resposta para aquilo. Quando viu, a pergunta tinha escapado de seus lábios.
- Luli, o que é sexo?
A mulher parou tudo o que estava fazendo e olhou lentamente na direção da menina. A cortina do banheiro a tapava, mas ela podia perceber que a garota esperava uma resposta.
- Só um pouquinho, amor. - falou, e saiu do banheiro. O homem que estava no computador ergueu a cabeça quando ela chegou perto. - Guigui, ela me perguntou o que é sexo! O que eu falo? Ela tem 5 anos!
- Calma. Ela provavelmente só quer saber se é menino ou menina.
- Tem certeza?
- Tenho.
Ela voltou ao banheiro. O chuveiro já estava desligado e a menina se secava dentro do box.
- Luli?
- Sexo é menino ou menina. Só isso.
- Ah tá. Brigada, Luli. - continuei me secando, calmamente. Com 5, aquilo era resposta o suficiente.
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A terceira pessoa foi utilizada pois o fato foi contado à autora, já que ela não se lembrava. Os diálogos foram inventados com base nos fatos.

muito tempo

Bocejei longamente, me espreguiçando. Era mais tarde do que eu imaginava. Não que eu tivesse problemas em dormir tarde, mas eu tinha que acordar em cinco horas. Cocei a cabeça e fui até a janela, fechar as cortinas.
Um movimento chamou minha atenção. Era tarde, sim, mas tinha alguém na rua. Abri o vidro, tentando espiar. Estava realmente escuro, e a pessoa estava atrás do poste, perto da esquina, onde não era iluminado. Passei a mão pelo cabelo, tentando pensar. Fosse quem fosse, agora estava totalmente escondido da luz.
Dei um pulo quando meu celular tocou. Bati a cabeça no teto baixo e xinguei. Peguei o aparelho rapidamente e o atendi. A voz do outro lado da linha me chocou. Veio carregada de lembranças, e dor. Por que raios estava me importunando agora?
Havíamos nos conhecido na escola quando éramos bem novos. Ela era encantadora e gostava de mim. E eu era totalmente caído por ela, sempre fui. Começamos a namorar no ensino médio, e esses foram os melhores dias da minha vida. Mas, como dizem por aí, o que é bom dura pouco.
Foi um telefonema simples: venha aqui fora, foi tudo que ela falou. Olhei pela janela, chegando a conclusão de que era ela lá fora. Pareceu notar meu olhar, pois deu um passo para embaixo do poste, ficando subitamente iluminada. Usava um casaco de couro fechado, o casaco que eu havia lhe dado em certo momento do nosso relacionamento. Os cabelos louros estavam soltos, parecendo uma nuvem ao redor da cabeça.
Suspirei profundamente, encostando a cabeça na janela. Não queria que ela estivesse lá. Me afastei da janela e coloquei um casaco. Saí da casa em silêncio, a cabeça baixa. Não podia imaginar o momento em que me veria cara a cara com ela novamente.
Foi um momento que não demorou a chegar. Ela havia andado até mim no momento em que eu abrira a porta, e agora estava ali, me beijando tão suavemente.
- Me desculpe – ela falou, quando finalmente se afastou. Eu estava atônito. Mais memórias me voltavam com força. Um amigo da família, sua mãe me ligando preocupada. A separação aos gritos, os pedidos repetidos de perdão. O desespero, os dias sem sair do quarto.
A resposta era simples. Eu não tinha dúvidas. Por que era tão difícil falar agora? Respirei profundamente, sem tirar os olhos dos dela. Eram azuis. Magnífica e incrivelmente azuis, como duas pedras de gelo. Iguais ao seu coração. Eu duvidava que em algum momento ela tenha sentido algo por mim.
- Não – sussurrei, tirando as mãos dela dos meus ombros e me afastando pesadamente. Eu a amei um dia. Mas foi um dia há muito tempo atrás.

9/2/11